sexta-feira, 8 de maio de 2009

"Apócrifo, das cartas não enviadas: E o Sertão virou mar"


Amor meu,


Sinto muito pela igrejinha e pelo museu. Sinto muito pela sua roseira, pelas roupas que estavam no varal, pelo bolo que não cresceu como você queria. Sinto ainda pelo seu caderno de versos, encharcado. Quem sabe com tudo borrado você não entende o que estava escrito? Por favor, não fique muito tempo molhado. Tenho medo que você adoeça e eu não esteja por perto pra te fazer um chá. Te botar no colo. Assanhar seu cabelo. Fazer o que de fato nunca passou de vontade.


Olha, deixa eu te dizer, você tem sorte de ter alguém que quer cuidar de você. É que encontrar gente que quer outras coisas, boas e ruins, é até fácil. Mas cuidar, cuidar mesmo, não. Carinho demais guardado é perigoso, que nem essa chuva.


Eu tento construir diques para conter a força torrencial do afeto em mim. É difícil, rapaz. É difícil ver tanto amor que tem pra ser dado apodrecendo aqui dentro. Por medo. Por não ver leito por onde possa correr tanta água. Eu não peço muito, entenda. O problema é que geralmente o pouco que eu peço é justamente o que não pode ser dado pelo outro. Eu quero só um bilhete, um doce. Quero só a segurança de não ser um “tanto faz”. E por já ter me doado tanto a quem não merecia, hoje eu seguro meu amor em nuvens pesadas, prontas pra chover. O problema não é chover. O problema é chover tudo num canto só. O problema é chover e não ver evaporar, não ver retornar ao céu tudo que já foi nascente, já foi rio, já desembocou no mar.


Mas não tem céu que agüente, meu bem. Um dia há de chover. E meu amor quando chove faz estrago, arrasta tudo o que vê pela frente. Arranca cerca, derruba muro, faz sangrar açude. Depois se aquieta, contemplando os destroços. Então desculpe se eu alaguei sua cidade, se molhei seus cadarços. Só queria que soubesse: foi inevitável.





imagem: Lara Jade

4 comentários:

Thalita Castello Branco, disse...

Diz que é de amor, de amor, de amor... e incurável.

Ver sua paixão assim, chovendo, me comove, Lara.

Regis Torquato disse...

Lara, minha intérprete.
Eu sinto, sem entender, daí você vem e escreve tudo, com entendimento e singeleza. É prazeroso isso.

Ramon de Alencar disse...

...
-O céu daqui, deste estado que estou, sabe desta história de chuva que corta e rio que sangra...

manias de ventania disse...

outono.