quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Apócrifos, das cartas não enviadas: O irmão bastardo de Ismael

Eu não sei exatamente se foi nesse dia que eu passei a ter medo de você ou se, pela primeira vez, entendi a dimensão do que você sentia.Talvez eu apenas não lembre. Tudo que sei é que o caminho de volta para casa estava assustadoramente estranho, como só consegue ser aos domingos. E só em alguns.

Não conseguia entender porquê eu.

Não conseguia entender porque precisava ser assim, tão dolorido, tão cheio de símbolos e metáforas que, de fato, nunca nos levariam a lugar algum. Se você traçava o mapa que te levaria até a minha casa, eu nunca estava lá. Se nos cruzávamos na esquina e você me seguisse até o portão, jamais te deixava entrar. Se, por um acaso, colocaste um grande envelope cor de terra em minha caixa de correio, a chuva o molhou e eu não consegui ler o que você tentou me dizer de tantas outras formas.

A verdade é que só quando outros falaram por você é que eu entendi que o que você queria me dizer não era tão difícil assim de ser compreendido. Não se eu estivesse disposta.


Quinze minutos para a pior hora da semana. Quinze minutos para a tarde do domingo se tingir de tons doloridos e tocarem os sinos da igreja chamando as pessoas para a última missa da semana. Ou a primeira. É o que mais dói no domingo: suas máscaras milenares nunca nos deixam saber se ele é o fim ou mais um início.

Antes fosse fim mas você já me esperava em frente ao portão para ouvir "não" mais uma vez. E ouviu. Encostou-se no muro como se quisesse colar os pulmões nas pedras geladas.


- Vai chover.

- É, eu sei. Por isso tenho que entrar, tá certo? Tenho muita coisa pra estudar e ainda quero assistir esse filme que aluguei.

- Mas não precisa chover para você entrar.

- E não precisa chover para você insistir em entrar comigo.


Aí você se calava, resignado. Como um cão que recebe um não. E falando nisso, te vi semana passada. Vagando por aí como um vira-lata sem rumo. Não sabia mesmo aonde queria chegar. E não me reconheceu.

Foi aí que, finalmente, eu abri a porta e disse: Seja bem vindo de volta.

Um comentário:

Thalita Castello Branco, disse...
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